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Luciana Mazza
Sex, 29 de Agosto de 2008 18:29
Escrito por Luciana Mazza
Mesmo em tempo difíceis, onde as vacas parecem raquíticas e cambaleantes, o mercado evangélico ainda é uma das fatias da economia brasileira que mais cresce. Por esse motivo, continua atraindo tantos investidores atrás da "galinha dos ovos de ouro". É correto afirmar que a fé que move montanhas também gera santos e bem-vindos lucros aos quem pretendem investir e se estabelecer no mercado dos “crentes”.
O Brasil, apesar de ser a maior nação católica do planeta, com 124,9 milhões de fiéis, tem passado, nos últimos anos, por uma notável mudança, marcada pela queda da proporção de católicos no total da população. Esta informação foi divulgada, pela primeira vez, na 44ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para perplexidade dos 320 bispos católicos presentes no evento, em Indaiatuba, no interior de São Paulo. Nas últimas décadas, a Igreja Católica brasileira perdeu nada menos do que 15 milhões de almas, segundo pesquisa de mobilidade religiosa feita pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris). O trabalho, coordenado pela socióloga Sílvia Fernandes, abrangeu cinqüenta municípios brasileiros, sendo 23 capitais, e foi realizado entre agosto e novembro de 2004. De acordo com o estudo, o primeiro motivo pelo qual o católico vem abandonando a doutrina é a discordância em relação aos seus princípios. O segundo é a sensação de não ser acolhido pela Igreja, e o terceiro é o fato de não ter encontrado, nela, um apoio para os momentos difíceis. Os resultados da pesquisa do Ceris embutiam um desconcertante corolário: de cada dez ex-católicos, sete tornaram-se evangélicos. Esse crescimento acelerado não deixa dúvidas de que o mercado do Senhor detém a força. Sem conhecer o significado da palavra “crise”, os negócios abençoados vão às alturas, levando ao pé da letra o conselho bíblico de crescer e se multiplicar.
Dados do censo demográfico realizado pelo IBGE, no ano de 2000, sustentam esses números. Uma tabela com os principais grupos religiosos do país revela que os evangélicos aparecem em segundo lugar, abaixo dos católicos apostólicos romanos, totalizando 26.184.941, em todo o país, ou o equivalente a 15,4% de toda a população brasileira. Projeções feitas pelo setor de planejamento do Datafolha, tomando por base a estimativa do IBGE para a população com idade a partir de 16 anos, em 2005, apontaram que: 26.365.975 dos brasileiros, com 16 anos ou mais, se declaram evangélicos, sendo 17.577.317 pentecostais e 8.788.658 não pentecostais. Mas os números não param por aí. Sobre os templos, informações confiáveis não existem, mas calcula-se muito mais do que 150 mil templos, a maioria deles com livrarias anexas espalhadas por todo o país. A Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo aprovou, em 2005, 41 plantas para a construção de novas Igrejas, e, no mesmo ano, de acordo com a Secretaria Municipal das Finanças de São Paulo, 2.675 imóveis pediram a isenção do IPTU, 245 a mais do que em 2004. Assim, somando as 245 novas isenções com as 41 novas plantas, são 286 novas Igrejas que deram o ar da graça dentro do nosso país. Sem falar na infinidade de artigos religiosos voltados, especificamente, para o público cristão.
Acha muita coisa? Nada disso. Para o Serviço de Evangelização para a América Latina (Sepal), as perspectivas são de maior crescimento para os próximos anos, havendo uma projeção de que, em 2022, metade da população brasileira será evangélica. Glória a Deus!
Diante dessa realidade, o mercado cristão caracteriza-se por um público fiel e constante, e os produtos destinados ao mercado religioso estão cada vez mais em alta. Atendendo a diferentes gostos e estilos, são oportunidades de bons negócios para convertidos e interessados no segmento.
Enquanto o varejo tenta driblar a crescente queda nas vendas, o mercado religioso anda de vento em popa, e supera todas as fases de instabilidade econômica. Os dados animadores chegam às editoras, papelarias, gravadoras, e até aos alternativos, em forma de bons negócios gerados por diversos produtos.
Só o mercado fonográfico cristão, considerado um fenômeno pelos revendedores de CDs, cresceu 70%, em 2 anos. Em uma pesquisa realizada pelo Instituto Franceschini de Análise de Mercado, o gênero representou 14% das vendas fonográficas, em 2002. Atualmente, existem, no país, mais de 120 gravadoras e distribuidoras de músicas gospel, e, aproximadamente, 500 emissoras de rádio e TV.
Já no mercado editorial, mesmo depois da crise da economia brasileira (época da desvalorização do Real), que tornou os livros um produto mais caro e inacessível para boa parte da população, o mercado cristão se recuperou. Foi o que afirmou, numa entrevista, o Pastor Eude Martins: “Devido ao crescimento contínuo do número de evangélicos, a tendência é expandir o volume de livros comercializados e aumentar o surgimento de novas editoras. Há, também, uma atuação dinâmica dos Pastores, recomendando a leitura de bons livros para suas ovelhas. Esta tem sido uma tendência em crescimento”.
E por falar em Pastores, não se pode esquecer da nova geração de pregadores evangélicos que está se formando. Segundo matéria publicada na Revista Veja, recentemente, esses novos homens de Deus chegam com um discurso totalmente inovador, dando menor ênfase no sobrenatural e mais destaque à auto-ajuda, conseguindo, dessa forma, cativar as pessoas, multiplicando o rebanho protestante, e aumentando a penetração na classe média e alta. Estamos vivendo a "Era do Evangelismo intelectualizado". O foco é cuidar da alma e da mente. Adotando alguns conceitos de psicologia, é possível ter um equilíbrio entre mente e espírito. O conselho é: “para se livrar dos problemas, é preciso uma mudança de atitude, na maneira de ver o mundo". Para o Pastor e sociólogo Rômulo Dias, da Igreja Assembléia de Deus de Porto Alegre: “O que estamos vivenciando é uma nova fase, onde a Igreja Evangélica resolveu deixar para trás alguns conceitos, e se adequar a uma nova sociedade”. A única preocupação do Pastor é se Deus aprova isso... Ele finaliza: “Hoje temos Igrejas para todos os gostos e classes sociais. Se a pessoa vai a um templo e não gosta do que escuta, ela muda de Igreja e não de atitudes. Infelizmente, o cristão se tornou um cliente, e as Igrejas, empresas, onde, muitas vezes, o que importa é a satisfação total do cliente. E o que faremos com os mandamentos do nosso Deus? Será que eles não se enquadram mais no programa de qualidade total? Isso é algo que esses novos Pastores vão precisar repensar”.
Para o estilista Marcos Sacomany, com todas essas mudanças, a moda não poderia ficar de fora: símbolos e dizeres cristãos estão em alta, e inspiram o mundo fashion: “Acredito que as pessoas estão procurando uma identificação com algo espiritual, e a fé virou um produto bastante procurado”.
O economista Raul Telles faz coro junto ao estilista, e acrescenta: “Os cristãos acabaram com a vida restrita que antes preconizavam. Hoje em dia, estão cada vez mais adaptados à sociedade. Só o mercado cristão é responsável pela geração de mais de 1 milhão de empregos. Os evangélicos se organizaram e estão tentando se profissionalizar, não são mais um aglomerado de ‘beatos’. Se os brasileiros estão procurando mais a Deus, se esses evangélicos são verdadeiros cristãos, e se estão em harmonia com os mandamentos do Deus que dizem crer, não sei. Mas as perspectivas são muito boas mercadologicamente, estamos diante de um mercado promissor!”.
Luciana Mazza
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